Primeiro Capítulo do livro: Sob Sua Proteção

23/04/2017

Quando tudo desmorona...

Mila

Hoje era para ser um dia especial, véspera do meu aniversário de 18 anos e depois de quase um mês sem ver minha família, vou finalmente voltar para casa. Estou morrendo de saudades da minha mãe e da minha irmã caçula. Desde que fui aceita numa famosa escola de dança, mudei do Morro para um pequeno apartamento, o qual eu divido com minha amiga Carol. Nós moramos perto da escola e dividimos todas as despesas, ou melhor, minha amiga fica com a maior parte. Ela vem de uma família de classe média e sempre teve tudo que quis, até hoje seus pais pagam uma espécie de mesada para ela, o meu caso é bem diferente eu tive que batalhar muito para chegar até aqui, já que preciso matar um leão por dia para pagar sozinha minhas contas.

Apesar de todas essas facilidades, minha amiga é uma garota bem pé no chão, nem um pouco deslumbrada com dinheiro e as facilidades da sua família. Além disso, ela é uma garota linda, tem um corpo perfeito de causar inveja a muitas mulheres, olhos verdes, cabelos castanhos e longos, se não bastasse isso, ela tem um enorme coração, está sempre ajudando as pessoas. Eu a conheci durante os testes, todos os dias tínhamos que provar nosso talento para estar ali, por isso o clima competitivo estava no ar o tempo todo, ninguém queria fazer amizades naquele momento, mas a Carol é assim, simples e despretensiosa. Por isso começamos a ensaiar juntas para os testes e depois viramos amigas inseparáveis.

O dia foi cansativo e depois de 8 horas repetindo os mesmos passos e nada de descanso estou esgotada, mesmo sabendo que tenho que ir de ônibus visitar a minha família não desanimo, pego minhas coisas e arrumo tudo na mochila que trouxe comigo esta manhã. Em seguida aceno para as minhas colegas de ensaio, ainda dou um beijo especial na Carol e pronto, saio da academia em direção ao local onde vou esperar o ônibus que vai me levar até a casa da minha mãe. Já está anoitecendo e as pessoas estão voltando para suas casas, por isso esbarro em algumas no caminho, estou totalmente distraída lendo as mensagens no meu celular.

Nem percebo que cheguei ao local certo até que bato numa senhora que carregava algumas sacolas nas mãos.

−Oh, me desculpe. Eu estava tão distraída e derrubei suas sacolas. Deixe-me ajudá-la. Termino de falar e vou arrumando as compras dentro das sacolas, que durante nosso encontrão saíram rolando pelo chão.

− Não se preocupe minha filha eu também não estava prestando atenção na rua. Ela se abaixa para me ajudar, mas balanço a cabeça indicando que não é necessário, já que consegui pegar todas as coisas que caíram da sacola. Depois de tudo arrumado, ajudo a senhora a carregar suas sacolas até o seu ônibus chegar. Alguns minutos depois, me despedi dela com se fossemos velhas amigas e fico para trás esperando o meu ônibus, quando já estou tendo um tique nervoso o bendito aparece, cheio, ou melhor, sem espaço para nem uma mosca, quanto mais uma garota. Depois de um aquecimento e um pouco de contorcionismo para entrar, consegui um espaço para ficar. Eu faço a viagem toda num canto sem poder me mexer e quando chego ao meu antigo bairro já é bem tarde. A minha mãe nem me espera hoje, já que liguei mais cedo e disse que iria vir só amanhã. Mas resolvi fazer uma surpresa, pois faz um tempo que não venho aqui, além disso, é véspera do meu aniversário e vou aproveitar o feriado e alguns dias de descanso para ficar com a minha família. Quando o ônibus chega próximo da minha casa, desço sem olhar para os lados, pois já conheço a rotina aqui, quanto menos chamar a atenção é melhor.

Vou caminhando pelos becos escuros e ruelas morro acima e quando estou quase chegando à casa da minha mãe ouço tiros e gritos, as pessoas descem o morro correndo, algumas se escondem outras ficam olhando sem entender o que está acontecendo e as crianças choram sem parar. Eu apenas ando mais rápido até chegar a minha casa, porém ao abrir a porta me deparo com a pior cena da minha vida, minha irmã e minha mãe estão caídas no chão da sala, cobertas de sangue e uma pessoa tem uma arma apontada para elas e atira mais uma vez, com o impacto me assusto e saio correndo, me escondendo num beco atrás da casa.

−Será que ele me viu? Falo num sussurro apenas com medo que ele venha atrás de mim. Depois me escondo atrás de alguns arbustos, sento no chão e encolho minhas pernas, estou tremendo de tanto medo. Morando na favela desde que nasci, já vi muitas situações de violência, mas nunca presenciei pessoas sendo mortas e ainda por cima alguém que eu conhecia e amava. Estou em pânico não sei se chamo a polícia ou uma ambulância. O que sei é que não consigo sair daqui o meu corpo simplesmente, não me obedece mais.

O que sinto é um medo que congela meus ossos e os dentes batem parecendo que irão estraçalhar na minha boca, fico assim por horas ou minutos, não consigo calcular. A próxima coisa que vejo é uma mão me puxando, tento me mexer e impedir que me carreguem mais me dou conta que não tenho nada, nem ninguém mais na minha vida, sendo assim fecho meus olhos e adormeço diante do inevitável.

Quando acordo sinto uma luz forte diante dos meus olhos e fecho novamente, com receio, será que morri? Mas minha cabeça dói e meus braços estão dormentes acho que aqui não é céu, então abro os olhos e encontro uma enfermeira checando meu pulso, trocando o soro por outro, não tenho tempo de perguntar, ela já se apresenta.

−Oi! Sou Ana vou cuidar de você hoje, porém agora descanse um pouco você está tomando sedativos tente se acalmar vai ficar tudo bem. Enquanto ela fala passa a mão no meu cabelo tentando me acalmar.

Será que é um sonho, ou melhor, um pesadelo? Não tenho tempo de verificar, adormeço novamente e quando acordo horas depois, ouço vozes. No começo é apenas um sussurro que não consigo identificar, em seguida consigo ouvir claramente:

−Ela precisa de ajuda. Todos estão atrás dela, vão matá-la, ela viu tudo e pode identificar o sujeito.

Nesse momento, alguém entra no quarto, ainda estou zonza, mas posso identificar uma sombra alta e grande se aproximando de mim, quando a luz reflete no seu rosto, me deparo com alguém que nunca tinha visto na vida, ele é alto e forte, tem cabelos pretos precisando de um corte e o que me chama a atenção são os seus olhos tão azuis, estou sem palavras e nem consigo desviar meus olhos dele enquanto fala comigo.

− Mila é esse é o seu nome, não é? Ele me observa atentamente e depois chega mais perto da cama, coloca as mãos dentro dos bolsos da calça jeans e fica esperando a minha resposta.

Nem consigo responder apenas balanço a cabeça assentindo.

−Olha! Sinto muito, o que aconteceu com você, mas precisamos fazer algumas perguntas. Você se lembrar de alguma coisa? Você viu alguém na casa, quando chegou? Ele pega um bloco de papel e uma caneta e fica me encarando com aqueles olhos tão azuis que fico paralisada olhando para eles.

Casa, que casa? Estou tão confusa e não sei sobre o que ele está falando. Então respondi apenas a primeira palavra que saiu da minha boca.

−Eu não me lembro de nada, nem como cheguei aqui! Nesse momento ele me olha confuso e chama alguém, enquanto sai do quarto, sem dizer nada. Alguns minutos depois uma médica se aproxima da minha cama.

−Olá sou Anne e gostaria de conversar um pouco com você.

− Tudo bem! −Concordo e depois me sento na cama me encosto na cabeceira.

− Você se lembra o que aconteceu com você na noite passada? Ela me olha na expectativa da minha resposta, mas apenas faço uma expressão confusa e digo:

− Eu fiquei ensaiando até tarde para um espetáculo de dança que já tem estreia marcada e depois usei o transporte público para ir à casa da minha família, mas não me lembro de chegar lá e nem como estou aqui numa cama de hospital. Depois de me ouvir em silêncio ela pergunta:

−Você bateu a cabeça em algum momento na noite passada?

− Não que eu me lembre apesar de estar com muita dor de cabeça nesse momento eu não me lembro de ter batido a cabeça em algum lugar, nem como vim parar neste hospital.

− Nós fizemos todos os exames necessários quando você chegou aqui, portanto pode ficar tranquila que certamente não é nenhum quadro clínico e sim algum tipo de estresse pós-traumático. Quando você se sentir segura, se lembrará o que aconteceu aquela noite. Depois que explica a minha situação, ela anota algo na minha ficha e sai do quarto.

Fico sozinha por um longo tempo, não consigo dormir mais. Até que uma senhora entra no meu quarto e diz:

− Boa tarde sou Alice, assistente social do hospital, a doutora Anne me avisou que você está de alta, porém precisamos conversar um pouco antes de você sair deste hospital. Ela segurava uns papeis nas mãos quando entrou no quarto, mas agora ela coloca os numa mesinha ao lado da minha cama e se senta numa poltrona bem na minha frente.

Depois ela começa a narrar os acontecimentos da noite passada e fico paralisada, como se tivesse assistindo no jornal mais um assassinato sem justificativa nas favelas do Rio de Janeiro, só que desta vez não é mais um caso é a minha família. Meu pai foi morto ano passado, ele devia para um traficante que resolveu cobrar tirando a sua vida e não posso dizer que sinto saudades, pois nunca tive um pai presente e carinhoso, sempre que eu chegava em casa ele estava bêbado ou drogado e nas últimas semanas os dois.

Mas minha mãe era uma guerreira e batalhava todos os dias para nos sustentar. Foi ela que me colocou numa ONG, para aprender a dançar desde que eu tinha 4 anos e era sempre a minha incentivadora, não posso esquecer da minha pequena irmã que tinha apenas 14 anos, elas não mereciam isso, mas foram assassinadas com 4 tiros cada uma. Depois de ouvir todo o relato da Alice, o desespero é tão grande que sinto que não vou aguentar mais, dói tanto que só o simples fato de respirar já me faz sufocar. Ela ainda tenta me acalmar e diz que irão cuidar de mim, serei levada para São Paulo para um programa de proteção à testemunha, uma vez que sou a única sobrevivente dessa tragédia.

Faço um esforço para entender a situação, mas a verdade é que estou anestesiada nada disso faz sentido, minha vida não me pertence mais. Sou orientada a vestir uma roupa que não me pertence e em seguida sou guiada para fora do hospital até o aeroporto e de lá embarcamos num vôo para São Paulo. Eu falo embarcamos porque estou acompanhada por um investigador da Polícia Federal, ele ficou responsável por mim durante esse trajeto, não sei aonde vou e para ser sincera nem quero saber, minha vida não faz nenhum sentido no momento. E a ignorância é o que me mantém em pé, caminhando um passo de cada vez.

Só quando chegamos ao aeroporto de Guarulhos, que levanto a minha cabeça e me deparo com aqueles mesmos olhos tão azuis que vi no hospital e no momento ele está me encarando perguntando alguma coisa que não sei bem o que é, até que ele toca no meu braço e repete:

−Está tudo bem, não vou deixar você sozinha. Depois disso ele segura minha mão e me guia até o estacionamento, entramos num carro e minutos depois chegamos num prédio bem alto. Entramos na garagem e depois saímos em direção ao elevador, entramos juntos. Ele aperta o quinto andar e chegamos num corredor bem iluminado e paramos em frente a uma grande porta branca.

Ele tira algumas chaves do bolso e abre a porta, entramos numa sala espaçosa e toda decorada, em tons preto e branco, parece uma sala de capa de revista, com um sofá de couro preto que contorna todo o espaço, um tapete no qual eu poderia dormir lá mesmo de tão fofinho que era. E no canto tem uma cozinha estilo americana linda e com acessórios que eu só vi em programas de televisão.

Depois da rápida observação sou guiada até um quarto.

− Oi Novamente!Meu nome é Nick e você ficará comigo até escolhermos um lugar para você. - Depois de falar tão rápido que quase não entendi para onde eu vou, ele vira as costas e sai do quarto.

Fiquei sozinha numa cama de casal enorme, nunca dormi em uma cama tão grande assim na minha vida, sento na beirada e ela tem os lençóis mais macios do mundo. O quanto tem um banheiro com banheira, parece que estou em um hotel 5 estrelas! Eu nunca fiquei em um hotel, mas imagino que eles sejam assim. Depois de observar tudo, cada detalhe, sem ter mais nada para fazer, deito na cama e fecho os olhos, não porque penso em dormir, porque simplesmente não consigo. Acho que é para não ficar olhando para o nada o tempo todo, fecho os meus olhos e vejo tudo preto como o buraco que está no meu coração.

Fico deitada por algumas horas até que ouço uma batida na porta:

−Oi, sou eu o Nick! Você quer comer alguma coisa? Ele fala abrindo apenas metade da porta.

− Não. - Digo bem baixinho porque não estou com fome, ele não insiste e se afasta da porta do quarto. Deito novamente e adormeço na cama até que acordo chorando e sou amparada por braços fortes que me envolvem na cintura e me dão uma segurança que nunca tive. Ele mexe nos meus cabelos e diz:

− Vai ficar tudo bem, você não precisa chorar. Estou confusa, mas quando recupero a razão e percebo que estou nos seus braços e ele está sem camisa, me afasto assustada e digo:

−Eu estou bem! Foi só um pesadelo você não precisa se preocupar comigo, acho que vou dormir agora. Vou me afastando dos seus braços, apesar de serem tão reconfortantes não posso ficar agarrada na cama com um cara que nem conheço.

Ele parece não acreditar que estou bem, mas se levanta da cama e sai do quarto me deixando sozinha no escuro.

Nesse momento sinto um calafrio por todo o meu corpo sem a sua presença, mas não tenho outra alternativa, preciso me acostumar ficar sozinha. Então puxo um cobertor que estava na beira da cama e me deito, mas não durmo novamente, fico com os olhos abertos esperando o dia amanhecer.