Um Amor na Guerra

25/05/2017

Conto: Um Amor na Guerra
Primeiro capítulo: O dia em que a Terra Parou

Hiroshima, 6 de agosto de 1945, acordei aquela manhã, mais cedo do que estava acostumada. Abri meus olhos e pulei da cama no exato momento em que me lembrei do seu gosto, seu perfume tão peculiar e que hoje eu o veria depois de três meses separados. Seria um encontro rápido, mas que deveria aplacar nossa saudade, pelo menos é o que eu pensava.

Coloquei meu uniforme que já estava pendurado na cabeceira da minha cama, caprichei no penteado pela primeira vez nos últimos meses e passei o batom mais vivo e brilhante que eu tinha. Quando eu me olhei no pequeno espelho, depositado estrategicamente atrás da porta do meu quarto, fiquei impressionada com o que um pouco de maquiagem pode fazer para uma mulher. Peguei o meu casaco vermelho e sai ainda no escuro da pensão na qual morava desde que cheguei em Hiroshima. Caminhei sozinha pelas ruas tranquilas da cidade até o hospital na qual eu trabalhava. Excepcionalmente hoje eu iria entrar mais cedo, para fazer um intervalo no momento exato do nosso encontro.

Ao chegar no hospital Shima, cumprimentei minhas colegas de trabalho e depois verifiquei cada paciente internado na minha ala, tudo estava tão tranquilo. Enfim amanheceu e eu olhei pela janela e fiquei hipnotizada observando o sol nascer tão brilhante e majestoso, o céu estava claro e azul com pouquíssimas nuvens. Apesar de estarmos em guerra, Hiroshima era uma cidade abençoada nós não tínhamos sofrido nenhum ataque aéreo até então, por isso as pessoas andavam tranquilas pelas ruas.

Eu passei as próximas horas ansiosa para que chegasse o momento de encontrar o meu amado Lorenzo, mas por mais que eu trabalhasse as horas não passavam, os ponteiros do meu relógio de pulso pareciam amarrados e os minutos se tornaram horas, me deixando cada vez mais frustrada. Afinal ainda faltava uma hora para o nosso encontro.

Fiz a minha ronda mais uma vez, chequei meus pacientes, conversei com as outras enfermeiras que estavam de plantão hoje e exatamente 8:05 da manhã, faltando apenas quinze minutos para o nosso encontro eu deixei o hospital e segui rumo ao parque no meio da cidade, onde tínhamos marcado nosso encontro.

Segui pelas ruas o mais rápido que podia, passei por escolas lotadas de alunos que brincavam no pátio, enquanto outras crianças estavam trabalhando como voluntárias nas fábricas ou no centro construindo abrigos, cruzei com mulheres segurando seus bebês que seguiam apressadas pelas ruas, nesse horário quase toda a população da cidade estava seguindo para seus compromissos diários, se não fosse pelo meu encontro eu estaria saindo de casa agora também.

Quando estava quase chegando ao meu destino, olhei no relógio e era 8: 09, por isso ainda teria tempo para chegar ao parque no qual eu já podia avistar do ponto onde eu estava parada. Observei as lojas que ficavam nesse trajeto e vi um pequeno restaurante, ele teria que servir para o meu propósito. Parei de andar e entrei no estabelecimento, com a ajuda de um funcionário encontrei um pequeno banheiro no sótão, o lugar estava escuro e com certeza não via limpeza há muito tempo, mas eu precisava de um lugar para retocar a minha maquiagem antes de me encontrar com o Lorenzo, por isso aceitei de bom grado o banheiro que me ofereceram.

Eu estava de frente para um minúsculo espelho, passando meu batom vermelho, a exatamente alguns metros abaixo do solo num banheiro imundo. Quando ouvi uma explosão que paralisou minha mão, o espelho rachou e caiu no chão, quase que os estilhaços param no meu rosto, o chão sobre os meus pés tremeu, sem nenhuma razão aparente, por isso eu me encolhi num canto, fechei meus olhos e esperei esse barulho ensurdecedor passar, algumas coisas caíram na minha cabeça, enquanto eu estava imóvel sem saber o que fazer.

Penso no nosso último encontro há meses atrás, ele teve um dia de folga depois que retornou para essa maldita guerra e conseguimos nos encontrar no mesmo parque que combinamos de nos ver hoje, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Assim que eu o vi parado numa pequena ponte me esperando, corri na sua direção, coloquei meus braços em volta do seu pescoço e puxei sua boca para a minha, num beijo intenso de saudade. Enquanto suas mãos desceram pela minha cintura me puxando de encontro ao seu corpo, a lembrança estava tão viva na minha memória que eu podia sentir o seu cheiro amadeirado e cítrico.

A primeira coisa que me lembrei ao abrir meus olhos foi no Lorenzo, será que jogaram uma bomba no pequeno restaurante e agora como vou encontrar ele? Eu fiquei me perguntando isso a todo momento, enquanto estou sentada no chão sujo do banheiro. Minha cabeça dói um pouco, pois eu devo ter batido em algum lugar durante a explosão, por isso ainda estou um pouco desorientada.

Segundo Capítulo: Será que morri?

Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali, imobilizada de medo dentro daquele banheiro, o que sei foi que no momento que o barulho diminuiu eu me levantei devagar, abri a porta do banheiro e sai caminhando pelos destroços que estavam no corredor do pequeno restaurante. No entanto quando consegui chegar no primeiro andar tudo estava destruído, parecia que tinha passado um tornado por lá e devastado tudo que havia antes, não existia mais nada, tudo estava destruído e uma nevoa de fumaça preta cobria tudo, algumas pessoas estavam soterradas embaixo dos destroços e eu não conseguia verificar se estavam vivas ou mortas, as coisas estavam confusas na minha cabeça. Eu me escorei num amontoado de tijolos e tentei respirar fundo, mas estava quase impossível, doía cada vez que eu puxava o ar. Caminhei devagar parecia que eu carregava outra pessoa nas minhas costas, tamanha era a minha dificuldade em se locomover.

Ao chegar onde eu achava ser a rua, a coisa se tornou ainda pior eu não sabia que direção seguir, tudo a minha volta era uma destruição total, não sobrou nada, todas as casas e edifícios foram destruídos, as pessoas gritavam sem parar chamando os seus entes queridos, ou pedindo socorro, à medida que eu caminhava passava por pedaços de pessoas, crianças queimadas e cinzas muitas cinzas, tudo estava tão escuro que pensei que estava num pesadelo e precisava acordar o mais rápido possível, porque eu não estava suportando mais ficar aqui.

Continue caminhando sem destino, enquanto as pessoas esbarravam em mim, gritando e pedindo ajuda, mas eu não sabia o que fazer, nem como ajudar essas pessoas tão machucadas, talvez se eu conseguisse chegar ao hospital poderia fazer algo por elas, por isso caminhei o mais rápido que consegui, enquanto desviava dos destroços e dos corpos que estavam espalhados pela rua, essa foi a cena mais triste que já vi na minha vida e dificilmente poderá ser esquecida.

Quando pensei que tinha chegado ao hospital, descobri que não havia nada ali, estavam tudo destruído, não sobrou nenhuma parede, muito menos pessoas, um lugar que estava cheio minutos atrás, agora não havia nada até os meus colegas de trabalho tinham evaporado, em algumas paredes eu conseguia ver marcas de pessoas. No entanto eu não fazia ideia como elas foram parar lá, por isso eu fiquei chocada, era muito difícil entender o que havia acontecido, num segundo as pessoas caminhavam tranquilas e no outro tudo havia desmoronado, virou um caos.

Eu coloquei minhas mãos na cabeça e comecei a chorar, porque eu sentia falta do Lorenzo para me abraçar e dizer que tudo vai ficar bem, como ele fez quando eu perdi meu primeiro paciente no hospital da Cruz Vermelha, agora aquela noite parecia tão distante, já que chorei a noite toda nos braços de um homem que eu mal conhecia por causa de um jovem soldado que morreu, enquanto eu tentava parar o seu sangramento no abdômen. Quem poderia imaginar que hoje eu estaria sentada no meio dos destroços de uma cidade inteira e chorando pelas inúmeras mortes que aconteceram aqui, sem saber o que fazer permaneci no chão e chorei, pelas pessoas inocentes que eu vi morrer e não pude fazer nada, pelas vítimas que ainda agonizavam no chão, clamando por uma ajuda que nunca chegaria.

Aos poucos o cenário começou a mudar e as pessoas que sobreviveram surgiram de repente, muitas estavam feridas e caminhavam com partes do corpo decomposta, pareciam mortos vivos vagando sem rumo pela cidade. No entanto todos ainda só queriam uma coisa, fugir desse inferno. Precisamos sair de Hiroshima, antes que a cidade fosse queimada completamente.

As pessoas corriam aflitas em direção ao rio, em busca de água. Os corpos de pessoas boiavam, enquanto os sobreviventes tentavam aplacar sua sede. Eu tentei me afastar desse inferno antes que eu enlouquecesse de vez. Sentei na margem e durante a noite tampei meus ouvidos para os gritos de agonia enquanto a cidade de Hiroshima era queimada.

Terceiro Capítulo: Quando um raio cai duas vezes no mesmo lugar

No dia seguinte consegui embarcar no último trem que seguiria para Nagasaki, eu precisava sair daqui, pois tinha que encontrar o Lorenzo de qualquer jeito, mesmo depois de procura-lo por quase um dia inteiro e não encontrar nada eu ainda tinha esperanças, mesmo contra todas as possibilidades eu precisava tentar.

Passei a viagem toda, ajudando as pessoas feridas que viajavam comigo, troquei os curativos quando era absolutamente necessário, segurei a mão de outros que choravam de dor e eu não tinha um remédio comigo para aliviar seu sofrimento. As crianças choravam baixinho, algumas lágrimas de sangue consequência da exposição a bomba, a maioria delas estavam com a pele queimada e as roupas rasgadas, por isso foram distribuídos cobertores na entrada da estação. No entanto a quantidade não foi suficiente para todos e ainda tinham crianças e mulheres vestindo pequenos pedaços de pano.

Cheguei a duvidar que muitos iriam desembarcar vivos ao nosso destino, mas não hesitei nenhum segundo em tentar ajuda-los mesmo assim.

Quando eu já estava exausta chegamos a Nagasaki, a cidade apesar de ter sido bombardeada outras vezes, nada na proporção do que aconteceu em Hiroshima tinha uma melhor infraestrutura para cuidar dos feridos, as pessoas desciam chorando e eram amparadas por médicos, enfermeiros e voluntários, eram poucos pela quantidade de feridos, mas ainda sim era melhor do que permanecer em Hiroshima onde tinha pouca ou nenhuma ajuda.

Ajudei os sobreviventes mais debilitados a descer do trem e procurar ajuda nas tendas improvisadas na estação mesmo, depois de muitas horas trocando vários curativos e fazer outros tantos. Consegui descansar escorada numa coluna de concreto, bebi um pouco de água, enquanto comia uma maça que havia ganhado de uma senhora assim que desembarquei.

Apesar dos gemidos e choros dos doentes, eu consegui voltar no tempo e lembrar com carinho no dia que me despedi do Lorenzo no campo de batalha e segui para Hiroshima, era uma manhã fria e apesar de ainda estar nos seus braços eu sabia que aquela sensação de segurança que sempre estava comigo depois que eu o conheci, iria desaparecer a partir de hoje cada um iria seguir rumos diferentes, o Lorenzo iria voltar para o seu país para se recuperar do seu ferimento de guerra e talvez não retornasse nunca mais, enquanto eu estava voltando para trabalhar num hospital em Hiroshima.

- Eu prometo ir te visitar em Hiroshima assim que puder, meu amor. - O Lorenzo diz com as mãos no meu rosto, enquanto me dava outro caloroso beijo na boca.

- Você tem certeza que nunca vai se esquecer de mim. - Eu suplico agarrada na sua cintura.

- Pode contar com isso, nós vamos nos encontrar novamente, você pode apostar minha vida nisso. - Essas foram as palavras que me fizeram seguir adiante quando eu pensei em desistir.

Na manhã seguinte acordei na cama improvisada, ainda na estação que desembarquei na tarde de ontem. Estava frio e meus dedos doíam muito. Deitei nesse colchonete já de madrugada e consegui fechar meus olhos pouquíssimas vezes. Dormi com os braços em volta do meu corpo como um cobertor. Porém isso não foi suficiente, os gemidos, choros e sussurros das pessoas sofrendo naquele lugar, não me deixaram pegar no sono. Caminhei devagar até a cozinha improvisada ali mesmo, a comida era escassa, mas consegui um pedaço de pão e uma xícara de chá quente, isso devia segurar minha fome pelas próximas horas. Então bebi o mais rápido que consegui e depois fui ajudar os pacientes que pareciam aumentar de um dia para o outro, até que exatamente ás 9: 00 horas da manhã soou um alarme de um ataque aéreo.

Eu gelei e paralisei no lugar pular de medo, pois não sabia o que fazer, as pessoas me olhavam apreensivas.

- Corra e se protejam antes que seja tarde demais. - Alguém gritou atrás de mim.

As pessoas começaram a correr sem direção em pânico, porém os que não podiam andar ficaram deitados nas macas horrorizados, com um semblante de medo.

Eu não corri, nem tentei me esconder, sentei ao lado de uma criança que estava com mais da metade do corpo queimado, segurei sua mão e esperei. Esperei por exatamente duas horas e um minuto, até que senti o impacto, meus pés tremeram, as colunas se desestabilizaram, a poeira levantou e eu fechei meus olhos esperando a morte chegar. Mas ela não veio, não sei por qual razão eu permaneci viva e o lugar ainda estava intacto.

Quarto Capítulo: A sobrevivente

A cidade de Nagasaki foi bombardeada pelos americanos três dias depois de Hiroshima, por uma bomba atômica bem mais forte e potente que a primeira, mas contrariando todas as possibilidades eu continuava viva, fui descobrir anos mais tarde que a bomba caiu num campo de tênis ao lado de uma fábrica, todas as pessoas que estavam no raio de 2 quilômetros desapareceram na hora e as que estavam um pouco mais distantes sofreram lesões severas e morreram dias depois.

Eu tive a sorte de estar alguns quilômetros desse local e por esse motivo consegui sobreviver mais uma vez, ainda sem nenhum ferimento grave, apenas pequenas escoriações pelo corpo.

Se antes eu tinha pacientes para cuidar agora eu não tinha tempo nem para dormir, fiz o que podia e cuidei com empenho e dedicação de todas elas, até que a dor era tamanha que eles acabavam morrendo.

Anoiteceu e amanheceu e eu continue nesse ritmo alucinante, até que não aguentei mais e também cai na cama fraca, provavelmente devido a exposição radioativa, tive febre alta e fortes dores de cabeça pensei que não fosse sobreviver, mas novamente a vida me surpreendeu e alguns meses depois eu já estava bem de saúde, foi um tratamento lento, fiquei tão fraca que demorei semanas para conseguir me locomover sozinha.

Quando já estava plenamente estabelecida tentei procurar por Lorenzo, mas as informações que eu tinha sobre ele eram poucas e muita coisa ficou destruída, tornando quase impossível encontrar alguém, mas eu sabia que ele estava em Hiroshima no dia na hora exata da explosão da bomba. E isso não me deixava tranquila, pois eu precisava saber o que de fato aconteceu com a única pessoa que se importava comigo.

Após os dois ataques os sobreviventes ficaram conhecidos como "Hibakusha", éramos testados e examinados como animais por médicos e cientistas de diferentes países, inclusive os americanos. Todos queriam descobrir os efeitos de uma bomba nuclear no corpo do ser humano, fizeram testes e mais testes comigo e outros sobreviventes, eu tinha até uma carteirinha que me identificava.

Além disso, os próprios japoneses começaram a discriminar os sobreviventes, as famílias que não foram expostas as radiações não queriam ser relacionar com os Hibakushas, por isso cada dia mais eu me sentia ainda mais sozinha e vulnerável. Meu corpo estava curado, no entanto a minha alma gritava por ajuda, apesar de sobreviver, não fui tratada com respeito no meu país e como não tinha mais nenhuma família aqui, decidi partir para o único país que me aceitou, o Brasil.

Quinto Capítulo: Procurando Você

Apesar da minha pouca idade um ano depois do início da segunda guerra mundial, eu me candidatei para trabalhar na cruz vermelha. Morei minha vida toda com a minha tia e assim que terminei meu curso de enfermagem a guerra começou, ainda fiquei um ano trabalhando em um hospital no Japão, mas estava descontente parecia que faltava alguma coisa. Por isso me candidatei para trabalhar cuidando das vítimas da guerra, foi a experiência mais enriquecedora e terrível que passei. E foi durante esse período que eu conheci o Lorenzo, era uma manhã terrível. Muitos soldados japoneses e seus aliados foram atacados de surpresa, a maioria morreu. No entanto o Lorenzo apareceu na tenda médica improvisada no meio do campo de batalha na qual eu estava, todo ensanguentado e com um tiro na perna e outro na barriga. O médico teve que fazer uma cirurgia de emergência para conter a hemorragia e eu tive que ajudá-lo, foram horas até que as duas balas estivessem totalmente fora do corpo dele.

Depois disso, ele dormiu por dois dias seguidos e quando acordou estava fraco e confuso. Eu tive que alimentá-lo durante uma semana, sem que trocássemos nenhuma palavra se quer. Quando eu já estava desistindo, ele resolveu falar e apesar de ainda estar muito debilitado, sentou-se na sua maca e perguntou:

- Qual è il tuo nome?

Eu não entendi uma palavra do que ele disse, olhei para os lados em busca de ajuda, mas não tinha ninguém além de mim, por isso eu me aproximei ainda mais e respondi:

- Eu não entendi o que você falou. - Ele me olhou confuso, mas no final acabou entendendo que eu não fazia ideia do que ele estava falando, por isso colocou as duas mãos no peito, fazendo gestos para que eu olhasse para ele.

- Lorenzo. - Ele pronúncia devagar apontando para si.

- Akemi. - Eu respondi, assim que percebi que ele queria saber o meu nome.

Os dias que se seguiram serviram para que eu descobrisse palavras novas para poder me comunicar com o jovem soldado italiano, eu consegui um dicionário e praticava a pronúncia das palavras em italiano todas as noites. Eu precisava conversar com o Lorenzo, mas para isso tinha que aprender a sua língua. No começo foi difícil, porém comecei a entende-lo cada vez mais, fui desenvolvendo a fluência e com o passar dos dias até conseguimos manter uma conversa.

Descobri que o Lorenzo morava em Sorrento, uma província de Nápoles na Itália. Ele vivia com os pais e sua irmã mais nova chamada Giovanna. Quando a guerra começou ele tinha terminado de se tornar engenheiro e todos os jovens foram convocados a lutar para defender seu país.

Os dias e as noites eram mais longos durante a guerra, por isso tentávamos passar o máximo de tempo que podíamos juntos, porque enquanto conversávamos esquecíamos que estavam num hospital improvisado no meio do nada. Quando estávamos juntos tudo era perfeito, e foi assim que me apaixonei por Lorenzo, sem planejar ter um relacionamento amoroso durante uma guerra, a verdade é que seu sorriso fácil, seus cabelos tão pretos e brilhantes, aqueles olhos verdes e sinceros me conquistaram no segundo que nós olhamos, foi por essa razão que fiquei desesperada para aprender italiano e ele queria de todas as formas saber meu nome.

Todas as noites eu trazia seu jantar e conversávamos por horas, às vezes ele me contava como era linda e romântica a sua pequena cidade, na Itália. Em outras ocasiões eu contava um pouco sobre a minha infância e assim descobrimos nossas afinidades que com o passar dos dias para a minha surpresa foram muitas.

Depois disso, eu me descobri cada dia mais ansiosa para nossos encontros noturnos, até o dia em que o Lorenzo se declarou para mim.

- Akemi, eu preciso te dizer uma coisa. - Ele comenta nervoso, logo depois que acabou de tomar sua sopa.

- O que foi você está sentindo alguma dor, seu rosto está estranho. Eu posso ir chamar o médico? - Eu perguntei preocupada, colocando minha mão na sua testa para saber se a febre voltou, uma febre nessa etapa, significava uma única coisa que a ferida estava infeccionada e poderia ser fatal para o paciente.

- Não é nada disso, eu estou bem. Você pode ficar tranquila. - Ele responde segurando a minha mão e olhando para o meu rosto sem piscar.

- Se você está bem, o que precisa me contar, então? - Pergunto um pouco mais aliviada, já que ele me garantiu que não está sentindo nenhuma dor.

- Eu preciso dizer que estou... apaixonado por você. - Ele gagueja e depois pigarreia tomando coragem e completa a frase.

Se eu esperava por isso, não eu nem se quer suspeitei. No entanto era tudo que meu coração que vinha sofrendo em silêncio com medo de ser rejeitado precisava ouvir para eu me jogar nos seus braços e colar meus lábios nos seus num beijo doce e suculento, onde nossos lábios se mexiam em perfeita harmonia.

Os três meses que passamos juntos naquele hospital foi a melhor época da minha vida, pois foi lá que descobri o amor no lugar mais improvável possível, no meio de uma guerra.

Quando desembarquei em Santos numa manhã ensolarada de dezembro de 1946 eu não era mais Akemi, aquela garota morreu. Agora meu nome era Laura e nesse país com apenas 24 anos eu reconstruí a minha vida. Comecei do zero e mudei totalmente de profissão eu não queria nada que me ligava a minha vida antiga, por isso em vez de ir trabalhar num hospital e fui para uma escola de crianças pequenas, pois a inocência delas me faziam ainda ter esperanças nos seres humanos. Eu não tive tantas dificuldades com a língua como muitos refugiados tiveram, talvez por que eu já sabia italiano, portanto o português se tornou mais fácil e à medida que eu aprendia novas palavras eu fiz questão de esquecer as antigas, guardei o japonese em algum lugar seguro na minha mente e nunca mais pronunciei nenhuma palavra nessa língua, porém o italiano apesar de também ser trancado a sete chaves no meu coração, às vezes antes de dormir eu ainda pronunciava uma ou outra palavra para matar a saudade, o nome dele era o que eu mais repetia.

Casei alguns anos depois e tive uma filha e um filho e quatro netos, mas nunca consegui esquecer um certo soldado italiano, por quem eu ainda era apaixonada. Meu marido foi o homem mais gentil e educado que conheci e isso bastou para que vivêssemos juntos por 45 anos. Uma vida plena e feliz que eu nunca poderia ter dito se tivesse permanecido no Japão. No entanto ano passado ele faleceu e eu tive que morar com a minha filha, deixei a minha casa para trás e fui viver no interior do estado de São Paulo.

Depois de uns meses morando aqui descobri que nesse lugar os dias são mais calmos e tranquilos, as horas demoram a passar e diante de tanta nostalgia e ociosidade, resolvi contar a minha história, com a ajuda da minha neta que se formará em jornalismo dentro de alguns meses, escrevi esse relato. Mas não pensem que minha história termina aqui, quando minha neta descobriu que eu sobrevivi a duas bombas atômicas, ela resolveu enviar meu relato para os jornais e revistas. Durante muito tempo eu fui convidada para palestras, entrevistas e meu relato está presente em museus ao redor do mundo.

E foi depois de toda essa exposição que ele me encontrou, recebi uma carta sua pedindo um encontro. No início não acreditei que poderia ser ele, por isso enviei outra carta recusando o convite, porém ele insistiu, não uma mais cinco vezes e quando eu não podia mais recusar, acabei cedendo e marquei o nosso encontro.

No dia combinado acordei cedo e passei a manhã toda nervosa e ansiosa, na hora certa, coloquei meu melhor vestido, amarrei meu cabelo num coque perfeito, passei um batom vermelho e segui rumo a praça no centro da cidade, onde havíamos combinado de nos encontrar. Passei todo o caminho com as mãos suando e quando eu o avistei sozinho num banco ao lado de um ipê branco, meu coração acelerou no peito, parecia que iria sair pela boca, tamanha era a minha ansiedade, por isso eu travei no lugar, não conseguia dar nem mais um passo. Fiquei vários minutos assim, observando o de longe até que ele olhou para cima e me viu. No mesmo instante ele se levantou e andou ao meu encontro, quando já estávamos frente a frente, mesmo depois de tantos anos e ainda com os corpos tão diferentes conseguimos nos reconhecer através do olhar, pois o Lorenzo ainda tinha os mesmos olhos verdes que me deixavam hipnotizada.

- É você mesmo, Akemi? - O Lorenzo perguntou me olhando. - Eu nunca parei de te procurar durante todos esses anos eu sentia em meu coração que você estava viva.

- Obrigada. - Eu respondi chorando, por poder enfim presenciar esse momento.

-Eu que devia agradecer, por finalmente rever o amor da minha vida. - Ele respondeu enquanto uma lágrima solitária deslizava pelo seu rosto. Fiquei assim por alguns minutos até que finalmente nos abraçamos, depois uma guerra mundial, duas bombas atômicas e um oceano que nos separou durante tantos anos e o seu cheiro ainda era o mesmo amadeirado e cítrico, tinha cheiro de casa.

FIM